Entrevista a Tiago de Matos Gomes

25-06-2019 13:06

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O Presidente do Volt Portugal pretende apresentar-se às eleições legislativas com um programa em que as prioridades são o combate à corrupção, educação e ambiente. Tiago de Matos Gomes acredita que existe espaço para a implementação de novos partidos, embora seja necessário esperar algum tempo até os portugueses deixarem de votar nas forças tradicionais.

Quais são os objectivos eleitorais para 2019?

Caso o Tribunal Constitucional aprove o Volt Portugal até ao final de julho podemos fazer o nosso primeiro congresso para eleger os órgãos internos do partido e os candidatos às Legislativas. Neste momento temos mais de sete mil assinaturas, mas queremos entregar perto de nove mil.

Qual é o significado do aparecimento de várias forças políticas nos últimos anos?

Os dois grandes grupos políticos, socialistas/sociais democratas (o PS em Portugal) e populares/democratas-cristãos (PSD e CDS em Portugal), que criaram a Europa que hoje temos, estão a perder força e capacidade de dar respostas a velhos problemas e a novos desafios. Vivemos num impasse, tanto no desenvolvimento e progresso das várias nações como numa maior integração europeia. O Volt nasce da necessidade de combater o populismo e o extremismo crescente na Europa e de criar pela primeira vez e de raiz um movimento pan-europeu que dê resposta a problemas europeus comuns propondo uma verdadeira democracia à escala europeia, que só se poderá concretizar criando uma federação.

Que tipo de mudanças vão perdurar nos sistema política após a realização dos actos eleitorais?

Em Portugal não antevejo mudanças substanciais nas eleições legislativas de outubro. A queda do PCP parece ser estrutural e a subida do PAN é inevitável. No futuro teremos uma Assembleia da República mais fragmentada, com menos representação dos dois grandes partidos, e, por isso, maiores dificuldades para que haja governos de maioria absoluta de uma só força política.

Durante quanto tempo o descontentamento popular face aos partidos tradicionais pode ser utilizado como argumento eleitoral?

O descontentamento com os partidos tradicionais é grande e expressa-se em votos nos partidos de protesto ou de nicho e, sobretudo, através da abstenção. Os novos partidos podem e devem capitalizar esse descontentamento, diminuindo a abstenção e dando voz a todas as pessoas que não se sentem já representadas pelos partidos tradicionais do sistema. O modo como se capitaliza esse descontentamento é que pode variar. Ou se capitaliza de uma forma populista, através de um discurso que incita ao medo e ao ódio… Ou se capitaliza de forma inteligente, propondo um modelo de sociedade mais justo, mais solidário, que, de facto, permita a melhoria da vida das pessoas. É nesta segunda hipótese que o Volt aposta. Queremos construir uma sociedade com escala europeia, com diminuição de desigualdades, combate ao desemprego, nomeadamente ao desemprego jovem, e à precariedade, aposta em novas formas de trabalho, aposta numa economia circular, combate às alterações climáticas, luta pela igualdade entre homens e mulheres, dar voz ao cidadãos tornando a União Europeia uma democracia com presidente e governo eleitos. E nunca alimentando discursos que atacam minorias e os mais frágeis da nossa sociedade.

Por que razão o fenómeno de novas forças políticas não surgiu mais cedo em Portugal?

Termos uma democracia ainda jovem, com apenas 45 anos – é bom recordar que a ditadura que a antecedeu vigorou durante 48 anos -, talvez seja o factor mais determinante para que tenhamos praticamente as mesmas forças políticas desde 1974. Por outro lado, os partidos populistas que surgiram, ou existentes que cresceram, no resto da Europa aproveitaram a crise de refugiados e dos migrantes para lançarem o seu discurso de medo e de ódio, ligando esse fenómeno aos atentados cometidos por terroristas islâmicos. Como se sabe, em Portugal não houve uma vaga de refugiados e migrantes a virem para o nosso território, nem tivemos qualquer ataque terrorista. E isso retira argumentos aos populistas portugueses, que se agarram a temas como a corrupção e à insegurança, esta última que é mais uma percepção do que uma realidade. Já os partidos liberais que surgiram têm como principais batalhas a diminuição de impostos e a redução do Estado, temas que só hoje poderão ter alguma adesão dado o papel do Estado na consolidação da democracia. O surgimento de um partido liberal nos anos 1980 ou 1990 não teria qualquer hipótese de sucesso porque nessas décadas era necessário o Estado criar todas as infraestruturas básicas que os fundos da CEE, depois UE, proporcionaram.

Em que sectores da sociedade um partido sem ideologia tem condições para ser implementado?

O Volt não é de esquerda nem de direita, mas isso não significa que não tenha valores muito sólidos. Não estamos é preocupados se as nossas propostas são de esquerda ou de direita nem nos interessam esses rótulos. Não estamos mais no século XIX e XX. No século XXI a dialética política na Europa é e será outra, entre os populistas, extremistas e nacionalistas e os democratas, moderados e europeístas. E o Volt está claramente no segundo grupo. Queremos que os cidadãos entendam as nossas propostas e adiram ao nosso projeto pelo que propomos e não porque somos de esquerda, de centro-esquerda, de centro-direita ou de direita. Uma boa medida não tem de ter uma carga ideológica.

Quais são os riscos que existem?

Para o Volt? Se os portugueses e os europeus nunca chegassem a entender as nossas propostas haveria o risco de sermos irrelevantes. Mas não acredito que isso aconteça, até porque temos o exemplo da eleição do nosso primeiro eurodeputado, o Damian Boeselager, pelo Volt Alemanha. Esta conquista permite-nos olhar para o futuro do Volt nos vários Estados europeus com grande confiança. Sabemos que o nosso caminho será longo, por vezes árduo e cheio de obstáculos, que demorará algum tempo até termos a adesão dos cidadãos de forma a elegermos candidatos nossos, até porque um partido novo e pequeno não tem as mesmas condições e meios que os partidos instalados.

De que forma o Volt Portugal irá trazer as novas discussões?

Tendo em conta a falta de meios nesta fase inicial, a nossa aposta para chegar aos cidadãos são as redes sociais e os media. Estamos presentes no Facebook, Instagram e Twitter, além do nosso site, onde está o nosso programa político, com mais de 200 páginas. Temos já falado para a maioria dos jornais e foi através deles que muitos dos nossos atuais membros nos conheceram. Começar a ir às televisões será o nosso próximo objetivo na área da comunicação. Por outro lado, o Volt é um partido responsável e trará todos os temas a discussão com uma postura séria, ponderada e fundamentada.Trabalhamos em rede por toda a Europa e contactamos com membros de outros Estados todos os dias.

Como se enfrentam os desafios globais sem adoptar uma ideologia?

Ser federalista pode ser considerada uma ideologia por si só, ainda que não seja de esquerda nem de direita. E os desafios globais, como as alterações climáticas, migrações, energia, segurança… só podem ser enfrentados e resolvidos à escala europeia. Nenhum país europeu sozinho poderá resolver nenhum destes temas por si só, como tem sido por demais evidente.

Quais são os desafios de Portugal nos próximos 10 anos?

Reduzir de forma substantiva as desigualdades sociais, precariedade no trabalho e os baixos salários são objetivos que deveriam unir toda a sociedade. Não é aceitável que um Estado europeu  tenha um salário mínimo de 600 euros, menos de 300 euros que o salário mínimo espanhol. Queremos um território mais limpo em que o ambiente é respeitado, que não viva apenas da cultura do eucalipto, do pinheiro e da oliveira. O combate à corrupção, sem soluções populistas, é outra das nossas bandeiras. Queremos um Estado menos burocrático, mais digital e mais amigo dos cidadãos. Outra aposta essencial é a educação, onde tem vindo a acontecer um enorme desinvestimento. Resumindo: emprego, ambiente, combate à corrupção e educação são as áreas prioritárias dos próximos anos para termos um país mais equilibrado e sustentável.

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